24 agosto 2014

AS 10 CANÇÕES MAIS (INJUSTAMENTE) SUBESTIMADAS DO BEATLES

Por: Scott Skinner
Tradução: Igor Matheus

 


Peraí. Os Beatles… subestimados? Você quer dizer… a maior banda da história? Aquela com mais de 600 milhões de discos vendidos desde que surgiram no The Cavern no começo dos anos 60? Só pode ser brincadeira.

Parece estranho usar o termo “subestimado” quando nos referimos aos Beatles. Mas existem muitas pérolas escondidas no catálogo da banda que merecem um momento de destaque.

Singles clássicos como “Hey Jude’, ‘Strawberry Fields Forever’ e ‘Help’ se tornaram marcantes, enquanto faixas de discos como ‘In My Life’, ‘Something’ e ‘A Day In The Life’ receberam os louros que mereceram. Enquanto isso, outras canções parecem ter sido ignoradas, não chegaram sequer aos Top Ten, ficaram ausentes do rádio e chegaram até a ser evitadas pelo X Factor, este grande bastião da música. Então é hora de equilibrar as coisas.

Já foi dito que canção pop perfeita é aquela que pode ser assobiada pelo carteiro. Pode ser que estas canções não tenham chegado a tanto, mas é justo que alcancem uma audiência maior.

Então estão aqui dez faixas que merecem mais reconhecimento como clássicos dos Beatles. Algumas das escolhas tem sido celebradas entre fanáticos e músicos dedicados, mas não pelo mundo inteiro. Mas isso muda agora.

10. I’ve Just Seen A Face

Lançado no álbum Help, “I’ve Just Seen a Face” é um marcado e ágil country de Paul McCartney. Gravada na mesma sessão de “Yesterday”, a canção traz letras que capturam a emoção da paixão à primeira vista, enquanto o instrumental casa o folk de Simon e Garfunkel com traços do divertido “remelexo” de Elvis Presley.

Em 1965, McCartney, envolvido em um caso amoroso com Jane Asher, ficou um pouco atrás de seu principal parceiro em relação às composições. Lennon escreveu e cantou em alguns singles anteriores, incluindo “Ticket to Ride” e “Help”, e parecia ter mais destaque nos álbuns A Hard Days Night e Beatles for Sale. Mas foi com ‘I’ve Just Seen a Face’ e a notável ‘Yesterday’ que McCartney voltou à forma.

De olho na crescente cena folk dos Estados Unidos, o selo americano da Capitol Records escolheu “I’ve Just Seen a Face” como primeira faixa na versão yankee do disco Rubber Soul. Amada por fanáticos pelos Beatles, “I’ve Just...” é o tipo de coisa que todo músico de rua deveria aprender – se honra seu chapéu na calçada. Subestimada talvez pelo público em geral, a canção não é esquecida pelo próprio McCartney, que a inclui regularmente em seus shows. Paul sabe o que é melhor.


9. It’s All Too Much

Eis um saboroso pedaço de psicodelia de George Harrison na trilha sonora The Yellow Submarine. A faixa começa com uma guitarra lamuriosa e ao mesmo tempo estridente antes de dar entrada a um macio tema de órgão. E então a bateria salpica e pula enquanto a música zumbe e “esperneia” – como se tivéssemos enfiado a cabeça dentro de uma colmeia.

Ninguém parece se esforçar muito enquanto a melodia flutua dentro de uma neblina suspeita, com tudo suspenso por uma firme base de trompetes. E eis um som que influenciou psicodélicas e maltrapilhas guitar bands através dos anos, desde os (injustamente subestimados) Boo Radleys e The Flaming Lips a grupos mais recentes como Jagwar Ma e MGMT.

Até para ressaltar a natureza da canção, Harrison chega a reciclar uma linha do hit ‘Sorrow’, do The Mersey, assim que a peça chega no final. Seis minutos de faixa podem ser literalmente demais, como o próprio título sugere, mas a peça do guitarrista permanece como uma excitante e caótica exploração da psicodelia da era LSD.


8. You Know My Name (Look Up The Number)

Geralmente colocada de lado como um número descartável de gracinhas, “You Know My Name” merece mais crédito não apenas por seu ânimo despretensioso, mas pelo seu pulsante mantra de abertura.

A peça abre com um canto breve, originalmente planejado para ter quinze minutos (o que teria sido incrível) antes de dar espaço para McCartney (como um desastrado crooner, ou um Denis Obell) a agir como um inebriado Sinatra recostado em um uma atmosfera de ‘samba’. Lennon interrompe, e reveza com o comediante Spike Milligan uma sucessão de vozes retardadas - tudo enquanto se repete o refrão “you know my name, look up the number”.

A banda continua a evocar seus heróis da comédia, como The Goons, Pete and Dud e Monty Python, enquanto ecoa a anarquia pateta do Bonzo Dog Doo-Dah Band. É certo que as tentativas de humor dos Beatles nem sempre conseguiam surtir efeito, mas esta bobagem é contagiante, divertida, e tanto Lennon quanto McCartney relembravam da canção com carinho – ao ponto de Paul declarar que esta era sua peça favorita dos Beatles, “apenas por ser tão insana”.

O Rolling Stone Brian Jones aparece para contribuir com um sax alto, enquanto o empresário e assistente Mal Evans adiciona alguma ambiência com uma pá sobre cascalho. Apesar de gravada em meados de 1967, “You Know My Name” não viu a luz do dia até 1970, quando foi lançada como lado B do single final de Let It Be.



7. Things We Said Today

Escrita durante um feriado nas Bahamas em 1964, “Things We Said”, de McCartney, faz um sombrio vislumbre de seu caso amoroso com Jane Asher. Enquanto estava em um iate com Asher, Ringo Starr e a futura esposa do baterista, Maureen, o baixista se recolheu para um deck inferior e criou esta reflexiva canção de amor.

A peça varia entre tons maiores e menores e da balada para o rock enquanto McCartney explora o conceito que ele viria a chamar de “nostalgia do futuro” – imaginar como o casal olhará as conversas que tinham em hipotéticos dias posteriores.

A peça ganha ainda mais vida com a guitarra base de Lennon e a batida apressada de Ringo. E é uma demonstração da maturidade de Paul como compositor: é notável como ele podia soar tão ácido mesmo tão jovem. A canção foi lançada no lado B do single A de “A Hard Day’s Night”.



6. What You’re Doing


Enquanto Lennon era um especialista na acidez, era raro vislumbrar um McCartney raivoso. Mas é esta peça frequentemente ignorada do Beatles For Sale que surge, talvez, como um dos melhores exemplos de um Macca irritado.

A bateria “spectoriana” de Ringo prepara o ambiente para um riff de George Harrison na guitarra de 12 cordas – um som que pavimentou o caminho para a carreira e o som dos The Byrds. “What You’re Doing” apresenta algo a mais em relação às típicas letras “raivosas” de Paul, possivelmente reflexo dos problemas que ele enfrentou em seu relacionamento com Jane Asher. Mas mesmo assim o baixista entrega um vocal doce, ameno – e suspeita-se que Lennon teria cantado com um tanto mais de veneno.

Aparentemente, a banda tinha dificuldade para fazer a canção vir à tona, e a abandonou em setembro de 1964 antes de terminá-la no fim de outubro. A pausa parece que funcionou quando McCartney persuadiu Ringo e George a alcançar performances mais espirituosas e diferenciadas.



5. Inner Light

Lançada em março de 1968 como lado B de “Lady Madonna”, “The Inner Light” assinala a primeira vez que George Harrison teve uma composição creditada em um single dos Beatles. E representou uma notável mudança de qualquer coisa ouvida antes em um single da banda – um mergulho total na música e na cultura indianas as quais o guitarrista estava começando a ficar imerso.

A base da faixa foi gravada nos estúdios indianos da EMI com músicos locais quando Harrison estava em Bombaim para gravar sua trilha sonora do filme Wonderwall, de inspiração hindu. Já as letras foram tiradas do texto taoísta, Tao Te Ching – e é assim que Harrison evoca uma doce e inocente canção, que soa como reminiscência da banda de folk psicodélico The Incredible String Band.

A canção é a mais bem sucedida incursão de Harrison dentro do universo indiano como membro dos Beatles, e revela a amplitude do poder musical do quarteto. Que outra banda poderia colocar lado a lado o boogie woogie de Lady Madona e algo tão delicado como essa peça?



4. Real Love

Pode uma canção que foi lançada como single realmente ser classificada como subestimada? Neste caso, sim. “Real Love” foi o segundo single lançado sob o projeto Beatles Anthology, que reuniu os três Beatles “sobreviventes” – na época – para ressuscitar duas demos deixadas por John Lennon.

Enquanto “Free as a Bird” recebeu muita badalação no seu lançamento no natal de 1995 – chegando até a receber um Grammy por melhor performance pop –, “Real Love” quase foi escorraçada no meio de março de 1996. A canção vendeu 50 mil cópias em sua primeira semana, mas foi ignorada pela Radio 1 no Reino Unido, que se recusou a colocá-la no playlist. Os Beatles “renovados” não foram suficientes para tirar Garbage, Shed Seven e Mark Morrison’s Return of the Mack do repertório da emissora. No rastro desse cenário, “Real Love” atingiu apenas um quarto lugar no Reino Unido e um décimo primeiro nas paradas americanas – um vexame para um material que merecia muito mais.

“Real Love” é uma sedutora peça que traz uma das mais comoventes melodias de Lennon – o piano original da demo é de rara e delicada beleza. E os três Beatles remanescentes fizeram um trabalho genuíno, mas a presença de Jeff Lyne na cadeira de produtor deu à canção um quê de “Bootleg dos Beatles à moda ELO” que tirou certa autenticidade de tudo. Ainda assim, é uma canção muito melhor do que “Free as a Bird” e, em termos de Beatles, o mais subestimado single do quarteto.



3. Rain

Talvez “Rain” não seja tão subestimada quando as outras nesta lista, pois cresceu em estatura e influência nos últimos quarenta anos desde que foi gravada. Mas ela ainda está para ser reconhecida como uma das grandes canções do grupo.

Apesar de ter quase quarenta anos, “Rain” ainda soa como nova e ao mesmo tempo indubitavelmente feita em 1966. Situada no lado B de Paperback Writer, Rain é um clássico rock que traz a melhor performance de Ringo Starr nas baquetas e um dos mais poderosos desempenhos vocais de Lennon. Starr preenche cada instante possível com sua bateria enquanto Lennon alonga cada “Rain” e “Shine” – e não surpreende que uma encarnação anterior do Oasis tenha sido chamada de The Rain.

O solo agudo de baixo de McCartney casa com a performance virtuosa de Starr, e a extraordinária mistura desaparece do fundo enquanto vocais se repetem por trás na coda. “Rain”, enfim, permanece como um dos mais emocionantes momentos na carreira dos Beatles.



2. There’s A Place

Iniciada com uma gaita meio que fúnebre, “There’s a Place” constroi uma madura evocação do espírito adolescente – capturando o crescimento da cultura adolescente e o ambiente de provocação do fim dos anos 50 e começo dos anos 60. Menos apreciada que “Twist and Shout” e “I Saw Her Standing There” no álbum de estreia da banda, a faixa traz dois minutos de perfeição pop.

Partindo de uma deixa de “Somewhere (There’s A Place For Us)”, do filme West Side Story, Lennon articula temas mais cerebrais do que as simples canções de amor daqueles tempos. Como Lennon pega a primeira voz e McCartney a segunda, as letras retratam o auto-refúgio mental – tema para o qual Lennon voltaria várias vezes por toda sua carreira.

Fruto de uma das melhores fases de John Lennon, a canção pode ainda ter influenciado Brian Wilson a criar o clássico “In My Room” para os Beach Boys. Gravada um pouco depois naquele mesmo ano, a canção trata de tema similar a “There’s a Place”: solidão e retraimento para ficar com os pensamentos.



1. Hey Bulldog


A vibrante e despreocupada “Hey Bulldog” é talvez o maior exemplo da autêntica alegria de ser um beatle Gravada durante a produção da promoção de “Lady Madonna”, a peça surgiu quando a banda desenvolveu um esquete criado em parte por Lennon em um das mais divertidas e dinâmicas criações do quarteto.

Claramente influenciados pelo estridente piano de “Lady Madonna”, Lennon e a banda produziram um hilário número de rock. O engenheiro de som dos Beatles, Geoff Emerick, chegou a dizer que aquela foi a última vez que a banda trabalhou como um verdadeiro time na canção e todos os membros estavam e no seu auge – talvez o último real vislumbre da maior banda de todos os tempos trabalhando como uma unidade coesa. McCartney em particular, produz uma espetacular linha de baixo.

O próprio Lennon entrega um incrível trabalho vocal, completo com latidos e urros de seu parceiro McCartney. A canção foi incluída no álbum Yellow Submarine, mas apesar de ser amada por fãs, merece aclamação universal como um dos pontos altos do brilhante catálogo da banda.



Fonte: The Beatles: As 10 canções mais (injustamente) subestimadas http://whiplash.net/materias/melhores/208954-beatles.html#ixzz3BKKoSXAv

20 março 2013

GENESIS - ANÁLISE DISCOGRÁFICA [PARTE I]


O Genesis costuma ser apontado como pináculo de uma linguagem morta, vazia, canônica e intelectualóide que seria implodida pela visceralidade ora neandertal ora pré-neandertal do punk nos anos 70. Era a linguagem do barroquismo e do floreamento progressivo, que depois de uma penca de discos soando exatamente iguais, começou, de fato, a desgastar a correia.

De fato, isso aconteceu com pelo menos 98% das bandas do estilo. Na maioria dos casos, o mal afetou a discografia inteira. Com o Genesis, curiosamente, não. Porque a banda não conseguiu permanecer a mesma em nenhum momento. No auge do rock progressivo, perdeu seu vocalista e principal letrista. Quando ainda tentava se reinventar, perdeu o guitarrista. Quando construía uma linguagem própria, teve de apropriar por completo a estética de seu membro mais bem sucedido. O Genesis nunca parou quieto. Não foi afetado por nada além das rasteiras de sua própria trajetória.

O objetivo da análise discográfica abaixo, dividida em três partes, é um só: nenhum. Mas como esse blog passou 5 meses parado, é importante ressaltar o benefício que meu retorno às atividades traz para a história da literatura brasileira: nenhum de novo.
 

PRIMEIRA PARTE: FIRTH OF FIFTH

From Genesis To Revelation (1969)



Um fã mais afoito de Genesis que escutar isso aqui pela primeira vez irá repensar seus valores, sua alimentação, seu dia a dia e, em um nível mais preocupante, sua opção sexual. Porque “From Genesis to Revelation” tem tanto a ver com o som característico da turminha de Peter Gabriel quanto um jiu-jiteiro amazonense com uma sessão de cinema independente egípcio. É verdade que para uma bolacha composta e gravada por punheteiros de 16 anos, soa muito bem – e é particularmente curioso como Peter Gabriel ecoava sua angelical voz de ancião com tosse antes de cultivar pentelho. Mas alguém sabia o que estava fazendo quando convocou tamanho bando de pivetes para um estúdio em pleno ano de nascimento de coisas como “Abbey Road” e “The Piper at The Gates of Dawn”. “From Genesis to Revelation” é, na verdade, uma espécie de demo inchada de canções a la Bee Gees para permitir que o produtor trocasse de carro. E como todo trabalho inchado, é irregular.

Na primeira metade, o disco não apenas exibe curvas características de um bom disco dos anos 60, mas se mostra melhor que muita coisa. Pecinhas simpáticas e bem estruturadas como “In the Beginning”, “The Serpent” e “In the Wilderness” poderiam ter sido regravadas por James Taylor e Joan Baez ao vivo em qualquer evento pró ‘bring our fucking kids back’. A segunda metade, entretanto, parece se esforçar para espelhar a primeira, em clara demonstração de que a capacidade criativa dos mijadores de cama ainda não contemplava um dispositivo de meia hora ou mais. No fim das contas, “From Genesis to Revelation” soa como muita coisa, menos como o som tortuoso, eruditóide e tecladístico que seria, de fato, o Genesis que se conhece. Bonitinho, mas depois da metade, meio ordinário. 


Trespass (1970)



A Rolling Stone dos anos 70 pode ser acusada de muita coisa. Menos de falta de contundência. Para ela, ‘Trespass’ era só um disquinho “irregular, mal definido, às vezes chato por natureza, e deve ser evitado por todos, menos pelos fãs mais fanáticos do Genesis”. É mais ou menos por aí. Apesar de conter a importância de já trazer os elementos fundamentais do jeito Peter Gabriel de ser Genesis – com exceção da bateria técnica e mais bem azeitada de Felipe Collins, membro mais tardio – , ‘Trespass’ é uma imundície sonora e traz infames arestas de experimentação. Mas assim como “From Genesis to Revelation”, não é um disco compulsoriamente dispensável. E diferente daquele, é uma demonstração de arrojo harmônico pouco observável, inclusive, entre grupos do então recém-surgido rock progressivo. O problema é que eles ainda não sabiam direito o que fazer com tamanha sofisticação. Enquanto aprendiam, soltavam peças infinitas com solos maiores ainda, masturbação tecladística a vontade e arranjos que se destacavam pela insistente capacidade de esmigalhar o bom senso.

Nursery Crime (1971) 



Phil Collins está surdo e distante o suficiente para ouvir essa. Mas “Nursery Crime”, seu primeiro bolachão com o Genesis, é o melhor disco pré-Selling England da patota. Para fazer a obra emparelhar com o clássico, o esforço seria tremendo. Mas poderia ser  resumido a intervenções facilmente localizáveis. Bastaria tirar fora dois terços de devaneios pomba-giratórios de “The Musical Box”, um terço de evoluções punhético-solísticas de “The Return of the Giant Hogweed” – alardeada por Steve Hackett como invólucro do primeiro solo de digitação da história dos solos de digitação –, outro terço de colagens felo-colonoscópicas e proto-timbrísticas de “The Fountain of Salmacis” e, finalmente, a porra da “Harold the Barrell”  inteira. Já o resto da obra soa como a apoteose das canções lentas, todas, aqui, irretocáveis: “For Absent Friends”, “Seven Stones” e “Harlequin” são irônicas demonstrações de um Genesis funcionando muito bem sem bateria justamente na estreia de seu mitológico castigador de peles.

“Nursery Crime” é uma espécie de Dança com Lobos do rock progressivo. No começo, a única coisa que nos faz ir até ele é alguma falsa curiosidade histórica. No meio, nos surpreendemos com suas babaquices. E no final, como melômanos fãs de progressivo de coração mole que somos, acabamos cativados, fieis e mais ababacados do que nunca.

Foxtrot (1972)


Pegaram aquela maçaroca tecladística que Tony Banks criou para a introdução de “Watcher of the Skies” e fizeram um timbre oficial de teclado. Mas aquilo só tem alguma graça em Foxtrot. No resto, soa como papel alumínio amassando. Porque é o tipo de coisa que corresponde, em termos sonoros, com a visão plastificada e em péssimo chroma key que os anos 70 têm dos anos 2000. A reprodução ad vomitum que o progressivo recente faz daquela sonoridade é um atestado de má nostalgia. Mas que é difícil de prestar atenção em cada detalhe desse disco, disso tem-se mais certeza do que da atividade sexual de certos vloggers.

A própria “Watcher of the Skies”, com todos os seus momentos risíveis e feitos às pressas aqui ou ali, é melhor do que tudo o que o King Crimson fez. “Time Table” é um medley de simpáticas ideias harmônicas, compreensível e assobiável por qualquer vovô fã de Orlando Silva. Já “Get em Out by Friday” é o momento em que Phil Collins diz “look at me once more” e Mike Rutherford, por sua vez, diz “suck it, Chris Squire”. Enquanto isso, a derradeira “Supper’s Ready” é só uma peça grande. E superestimada exatamente por causa disso. Porque se ela tem mais de vinte minutos, é porque a banda quis que você dedicasse parte de seu dia a contemplar sua grandiosidade. Pelo menos até que se entenda que ela não passa de uma colagem de peças com um refrão repetido mais do que seria justo.

No cômputo geral, Foxtrot garante os três pontos. Mas era apenas mero exercício do que ainda estava por vir. 



 
Selling England by the Pound (1973)



Todos os vícios instrumentais que tornam qualquer disco de progressivo italiano, húngaro e alemão mais enfadonho que teorias esquerdistas de reengenharia social estão nesse disquinho. Mesmo assim, “Selling England” comporta-se como uma masterpiece deslocada – o tipo de coisa que nem o próprio Genesis conseguiria reproduzir de novo. E a culpa é inteiramente deles. Aqui, os solos de Hackett são sofisticadamente simples – ou simplesmente sofisticados. Tony Banks prossegue no posto de melhor tecladista do rock. Peter Gabriel, no de pior cabelo. O baixo de Rutherford, em oposição ao desespero fraseador de Chris Squire – que não é nem de longe um defeito, pelo menos no Yes – é tão seguro que permite excessos ocasionais de Phil Collins. E o que dizer deste impagável motherfucker. Sem o remelexo de Collins, o Genesis seria insuportavelmente mais chato do que conseguiu ser nos discos anteriores. E o absurdo intermezzo de “Battle of Epping Forest” não soaria como se tivesse sido gravado em 1994.

Até pouco antes de “Cinema Show” – e apesar da maçante “I Know What I Like” –, é razoável acreditar no cânone que estabelece “Selling England by the pound” como um dos melhores discos do Genesis. Depois de “Cinema Show” – e apesar da maçante “I Know What I Like” –, é difícil acreditar em outra coisa.

12 outubro 2012

HERÓIS DA INFÂNCIA


Tá tliste 
[confiram meu novo blog http://igmatheus.blogspot.com.br - política, cultura e comportamento.  Não é vírus]
Eu faço pose de sofisticado há muito tempo. Mas hoje vou exagerar. Enquanto você teve Balão Mágico, eu tive Jean Michel Jarre, Vangelis e Kitaro. Enquanto você teve Simony e Sandy e Junior, eu tive Claudio Abbado regendo a Sinfonia no. 40 de Mozart e as danças húngaras de Brahms. Enquanto você teve José Augusto cantando 'Agora Aguenta Coração', eu tive Peter Cetera e temas famosos de westerns e clássicos da MGM. Enquanto você teve Kiko Zambianchi arruinando Hey Jude e Leandro e Leonardo, eu tive Benito di Paula, Paulo Diniz e o grupo Polegar. Peraí. Benito di Paula, Paulo Diniz e o grupo Polegar não são tão dignos de orgulho assim. Não deveria nem ter mencionado isso. Mas o pior é ter gostado de Spice Girls. Aos 14 anos, tinha até uma queda razoavelmente séria por Victoria, futura ms. Beckham, e pela harmonização vocal de ‘Say You’ll Be There’.

Pouco tempo depois, me emprestariam uma fita de Scorpions, outra de Led Zeppelin e o “Wish You Were Here” do Pink Floyd. Minha vida anterior se transformou em um oceano de cinzas – até eu fazer as pazes com Jean Michel Jarre e Claudio Abbado. Mas isso não apaga Spice Girls e Polegar do meu currículo. Minha infância foi ridícula.

Mas admita. A sua foi muito pior.

Jean Michel Jarre – Rendez Vous III

O sujeito fazer toda essa pantomima sobre um monte de luzes era algo absolutamente normal nos anos 80. O que não era normal era o som ser, de quebra, uma peça com esse nível. Foi uma das coisas mais decisivas pra formar minha vontade de tocar teclado.



Bônus: Jean Michel Jarre – Ron’s Piece

Na verdade, quando criança, era viciado no Live in Houston/Lyon, mas odiava isso aqui. Quando voltei a escutar já adulto, odiei ser criança. É inacreditável. 



Paulo Diniz

Paulo Diniz me aterrorizou a infância inteira. Porque, segundo minha mãe, essa voz rouca era resultado de horas intermináveis de choro e enchimento de saco. Como eu fazia. 



Roupa Nova – Coração Pirata

Provavelmente a primeira letra que aprendi, já que, até ali, só me interessava por instrumental. Passava na televisão com mais frequência do que as chamadas de Tieta. Até hoje gosto disso. Graxeiras e estudantes de supletivo, uni-vos. 



Jules Massenet – Meditation from Thais

Meu namoro com o erudito começou aqui. Eu tinha 5 anos. Não me lembro se ‘Meditation’ era uma daquelas peças de novela ou não. Sei que fazia parte de um disco da Sony chamado ‘Classics’, muito popular na época. Eu merecia um prêmio da Sony pela dedicação dava a esse bolachão. 



Mozart – Kyrie Eleison

Escutei isso tantas vezes que seria capaz de compor uma fuga quando quisessem. A linha dos tenores me deixava maluco. A dos baixos, insano. Abriu meu ouvido pra sempre. 


Spice Girls – Say you'll be there

Puta merda, esse tem que ficar no fim. Preciso manter minha reputação com os headbangers do Whiplash. Inclusive entre os que escutam isso até hoje de madrugada, escondidinhos, e usando uma luvinha preta.

Se eles encontrarem esse vídeo e acharem muito ‘girly’, talvez prefiram essa versão aqui:



15 agosto 2012

JOINHA DE MÚSICA / BOSTINHA DE CLIPE II





I HEAR YOU NOW (JON AND VANGELIS)

Qual é a da música:
Uma boa peça da dobradinha Jon Anderson e Vangelis, encontro ocasionado pelo cansaço que Jon Anderson estava sentindo de não estar no Yes e do cansaço que Vangelis estava sentindo de ser chato.

Qual é a do clipe: 
Pouco depois do lançamento dessa canção, Vangelis ganharia um Oscar. É crucial que se saiba que não foi nem em roteiro nem em direção artística.

Observações:

1)    Legal a dancinha... (“rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs”)

2)    Jon e seu escapulário de Itu atochadinho na garganta. Não dá pra acreditar que isso era levado a sério. Mesmo em 1981. 

3)    Esse palhaço no meio sou eu dando ibope pro clipe. O da direita é você dando ibope pra mim. O da esquerda é o cara que me lê escondido sem saber que isso também dá ibope pra mim. 

4)    Olha lá o minimoog no céu de Santo Amaro. O que quer dizer apenas uma coisa: Vangelis, o machão comedor de gregas, se recusou a dividir a tela com um bailarino de Hair e uma gargantilha gigante. Preferiu repassar a bronca para o seu pobre teclado.  

5)    Legal a dancinha... (“rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs")

14 agosto 2012

JOINHA DE MÚSICA / BOSTINHA DE CLIPE I


VITAL SIGNS (RUSH)

Qual é a da música: 
É simplesmente a peça de fechamento do 'Moving Pictures', um dos três melhores discos do Rush - senão o melhor - e um dos pouquíssimos acertos do rock progressivo nos anos 80. É também uma das melhores peças de encerramento de qualquer disco gravado de 1900 pra cá.

Qual é a do clipe:
É um filmeco de divulgação apenas pra mostrar os caras tocando. Ou mais um trabalho pra confirmar o quanto Geddy Lee é aterrorizante, o quanto Neil Peart realmente maltrata a bateria e o quanto os três ficavam muito mal de óculos escuros.

Observações:
1 - Vejam que o filmeco parece ter sido feito pra pagar o estudio. Graças a ele, todos sabemos que o Le Studio existe. E que o Rush gravou lá. Faça já sua reserva.

2 - Neil Peart está disfarçado de treinador de Pokemon.

3 - Gedy Lee está disfarçado dele mesmo.

4 - Sabe o cara que inventou esse fade in em cinza aos 2m50s? Não seja esse cara.

5 - Alguem esqueceu a marmita em cima do atabaque a exatos 4m07s.


02 julho 2012

ESPECIAL CLUBE DA ESQUINA



É difícil escapar do coro: é realmente ‘paudurescente’ – obrigado, Lobão – a Globo transmitir uma coisa como essa. Mas assistir isso na hora em que foi exibido é como esperar ansiosamente pelo próximo episódio do Telecurso. Viva o Youtube, o povo paraguaio e a seleção da Espanha.

Duas observações: a primeira para o estagiário da mesa de edição. ‘Fernando Brandt’ é um empresário têxtil. A segunda é sobre o “adeus ao velho barroco mineiro”. Ficou engraçadinho. No mau sentido. E não achem que essa é a coisa mais chata que direi aqui.

Mas que se registre antes de mais nada: mais vale um especial Clube da Esquina do que 20 ou 30 anos de Show da Virada.

1 – Para Lennon e McCartney (Milton e Lô)

Lô Borges sem guitarra é uma grande perda de tempo. É duro ver uma cena como essa em qualquer lugar. Se no meio da transmissão Marcio Canuto aparece falando das gostosas do carnaval de Olinda, veremos que o boneco de 3 metros de Carlinhos Cachoeira ali atrás tem mais jogo de cintura que nosso gênio orelhudo. E o que dizer do sr. Nascimento. Certa vez fiz um texto contando o quão constrangido eu ficava a cada aparição nascimentiana na televisão. Era um negócio realmente agressivo, determinando o absoluto fim de sua carreira e a ainda mais absoluta necessidade de que ele revisse seu visual Stevie Wonder de plástico. Aqui ele não fede nem cheira. Assim como essa canção, que já deu o que tinha que dar. O batuquezinho do introito é só uma forma que arranjaram de expressar um ‘estamos tão cansados de ouvir essa trolha quanto vocês, mas a gente tenta se divertir’. Lô, meu brother, arranje uma fucking-guitar e me grave outro “Um Dia e Meio”. Miltão, não quero mais te ver, cara. 


Ói o remelexo do moleque...


2 – Tudo o que você podia ser (F. Takai e As Minas)

Que é isso, véi. Que coisa linda. Pela primeira vez estou pouco me lixando para o incômodo de saber que não compraria um disco dessa banda que acompanha a Takai. Esse sonzão ‘Cidadão Instigado encontra o Kassim no seriado do Shaft’- embora eu pague pau pra várias ideias do Kassim – nunca me atraiu. Mas seria massagista,  psicólogo e roadie de calcinha quando elas quisessem. E a levada funkeada renovou a canção, deixando-a mastigadinha para o pessoal da calourada em Ciências Sociais. Boa releitura da banda e boa leitura de Takai – não dos vocais, mas da letra que estava impressa no suporte mesmo. 

A prima "bem comissionada" da Dani Suzuki mandando ver no groove.

3 – Sal da Terra (Felipe Catto)

Esse Felipe Catto deve ter saído do último Ídolos como a nova Daniela Mercury. Nervoso com a presença de Camila Pitanga, ele deve ter pensado em ir mais longe:  imaginou o que deveria acontecer caso o My Chemical Romance resolvesse fazer um cover de Beto Guedes com o figurino de Willy Wonka. É claro que daria sarapatel. Beto Guedes cometeu vários erros na carreira – como dar entrevistas –, mas sua versão de “O Sal da Terra” é o tipo de coisa que não vai ser superada. Escolha arriscada de repertório, interpretação afetadíssima e a banda meio que se escondendo, fazendo o tipo “meu, o show é do cara aí... tenho nada a ver com isso”. Resultado: Jaqueta “A Fantástica Fábrica de Chocolate de Freddie Mercury” 1 x 0 Filipe Catto. 

Sem mais, meritíssimo.

4 - Sol de Primavera (Kamy)


E tome Especial Beto Guedes. E lá estão Jorge e Mateus para... não são? Que bom pra eles. E melhor ainda para eles é que a versão ficou à altura do desafio. Se “Amor de índio” é a Yesterday de Betão, “Sol de Primavera” é sua Hey Jude, e é o tipo de coisa que geralmente não precisa ser mais martelada. Mas aqui ninguém fez feio. E mesmo que quisessem fazê-lo, estariam lá os caras que acompanharam Milton e Lô na primeira performance para salvá-los. Mas o visual de galã de balada de um e a pegada de violão do outro não despistam: eles saíram de lá direto pro backstage de Fernando e Sorocaba.  




Os galãs mandaram bem.

5 – Paisagem da Janela (Megh Stock)


Quase ficamos Diante do Trono, mas deu tudo certo.

Vocal de gospel brazuca, background de gospel brazuca, pegada de gospel brazuca... e ficou interessante. “O que você tem contra gospel brazuca”? O gospel local é uma merda. Se nos EUA é necessário ouvir o gospel para entender o que acontecerá na black music dos próximos 10 anos, aqui é preciso ver o que de pior aconteceu no sertanejo e deixar em banho-maria por 10 anos para atingir o nível de diluição do gospel verde-amarelo. Mas Megh Stock trata a canção com carinho, e a renova com competência – e alguma irreverência. Se ela continuar assim, dá pra pagar mais ao dentista e tirar logo o aparelho.



6 – Um gosto de sol (F. Takai e As Minas)

Escolha estranha de canção. Exatamente por ser um pedaço de hermetismo dentro do Clube, que é brilhante também por causa desse colorido. Mas para um especial de televisão de canções com dois ou três minutos, ainda é uma opção complicada –mesmo que Takai, que já a gravou com o próprio sr. Nascimento, estivesse familiarizada com ela. Difícil é dispensar a segunda parte, praticamente um hino melódico dentro do movimento – e muito bem aproveitado pelas princesas. Talvez o melhor fosse começar com esse trecho indispensável e concluir com algo como ‘Nuvem Cigana’. Ponto, entretanto, para a preservação da nudez do piano. Os fãs de Gustavo Lima insones em casa precisavam saber, ao menos uma vez na vida, o significado de “harmonia”.

 7 – Feira Moderna (Felipe Catto)

Willy Wonka é mesmo uma criança irrequieta. E agora o negócio dele é alterar a harmonia. O problema é que alterar a harmonia é coisa para poucos. É corajoso, às vezes necessário. Mas quando o objetivo é tornar as coisas um pouco mais econômicas, não mata quando se tem algo para compensar – como uma pegada muito mais marcante, por exemplo. Nosso Johnny Depp de loja de departamento e sua patota não fazem isso. E “Feira Moderna” fica meio anêmica, nem rock nem rural, e restrita a ser um intermezzo sem graça desse musical sobre jaquetas que Felipe Catto finge protagonizar.

8 – Trem Azul (Lô Borges)

O próprio Lô Borges possui versões gravadas e ao vivo muito superiores a essa. O que tocaram aí foi só um registro de fadiga em torno da insistência de se executar um troço que não se renova. Só que Lô é um cara legal. Ele não quer desapontar produtor nenhum, principalmente depois que o ameaçaram de fazer um especial “Willy Wonka canta Salomão Borges”. Mas ele bem que poderia ter mandado um ‘Ruas da Cidade’, uma canção de grande apelo melódico, do repertório do ‘Clube da Esquina 2’, e que não se vê ao vivo desde... desde nunca, mermão.

9 – Nada será como antes (Megh Stock)

E como as coisas melhoram quando Reginaldo Manzotti para de olhar feio pra banda do fundo do palco e a deixa respirar. A esplêndida harmonia da canção está toda lá, e os arranjos exploram bem todo o potencial que a canção tem para vibrar um palco. Uma versão que deveria ser gravada.

10 – Um girassol da cor do seu cabelo (F. Takai e As Minas)

Lô Borges estava no estúdio essa hora. Ou ele chorou de satisfação, ou socou a punheta de sua vida. É verdade que o início desperta a desconfiança de que Otto entrará a qualquer momento. Mas depois disso o panorama econômico melhora, e muito. Além de tocarem o que tocam, as mocinhas harmonizam os vocais muito bem e encaixam na voz de travesseiro de ms. Takai Ulhoa. E o xote do trecho final é tão mais interessante do que a ingênua levada original que deveria ser adotada pelo resto da vida do nosso querido Salomão, que deve estar até hoje atrás do Facebook da japinha peituda da guitarra.

11 – Vera Cruz (M. Nascimento e Wagner Tiso)


Milton Nascimento deveria se juntar a Roberto Carlos e tirar umas férias em Andrômeda, na vizinhança da casa de verão de Baby do Brasil. Mas um sumiço assim, deixando a discografia. Wagner Tiso pode ir também, mas daqui uns cinco anos. Acerca de Vera Cruz não há muito o que dizer. As versões instrumentais de trios de jazz se empilham até a lua no Youtube. É uma canção brilhante, mas cansada. Uma canção cansada cantada por um sujeito cansado acompanhado por outro sujeito cansado simplesmente... cansa.

12 – Nascente (Felipe Catto)

Tem alguma coisa errada com esse baterista de Willy Wonka. Porque parece que o sujeito está imerso em uma eterna virada. Sua performance é exatamente isto: uma virada infinita. É por isso que as versões das demais bandas soam como canções revisitadas, e as dessa banda de Felipe, como vinhetas longas demais.

13 – Cravo e canela (Megh Stock)

Aí chega a banda pré-gospel de Megh e faz praticamente a mesma bosta quente que a banda de Willy Wonka agora há pouco. Até puxada a la Riquelme o baterista se propõe a fazer no meio da confusão percussiva que ficou isso aqui. É tudo tão arrastado que, se fecharmos os olhinhos, veremos Joyce nua e dopada cantando o tema de Pantanal dentro de um igarapé.

14 – Veveco, Panelas e Canelas (F. Takai e As Minas)

E o especial Beto Guedes termina com uma versão comportadinha de “Veveco” que, convenhamos, não dá muita brecha para gracinhas e firulas. Fernanda Takai segue seguríssima sobre o background de suas talentosas gatinhas, mas o especial segue muito longe de ter um final apoteótico. Foi válido por ser ao menos uma versão dessa canção além do esforço sôfrego e doentio de Beto Guedes de continuar executando-a por aí.

30 junho 2012

Cinema: “PROMETHEUS”, de Ridley Scott

Momento "agora a porra ficou séria"

Resumo:
Patota bem heterogênea sai atrás de respostas – pra várias questões – em uma lua perto de Putaqueparilópolis a bordo de um velocípede espacial apelidado ‘Prometheus’. Depois da aterrissagem, dois mais dois começa a dar oito. E o resto só titio Ridley Scott mesmo pra estragar. 


Nota: 4,18



Se quiserem realmente acabar com o mundo para evitar outra edição do Rio +20, que façam um experimento genético entre Ridley Scott e a Mulher Melancia. Porque do jeito que o diretor inglês é um bundão, sua fusão com um rabo ambulante engoliria a galáxia como se ela não passasse de um supositório de cereja. 

A mais nova bundice de mr. Scott se revela sob todo o desperdício de enredo, de recursos, de atuações, de altíssima qualidade sonora, de questionamentos, de atalhos roteirísticos, do cacete a quatro que vem embutido no seu ‘Prometheus’. A cada minuto e pouco de um novo clichê – ou de alguma cena tão brilhantemente construída que desperta nos providos de bom senso uma inominável vontade de que mais nenhum personagem abra a boquinha –, o irmão ranzinza de Tony Scott mostra que nunca teve muito tato pra direção geral: seu negócio mesmo é a direção artística.

As obras de Scott pós-Blade Runner trazem duas características recorrentes: ingenuidade dolorosa e orçamento de Olimpíada. Há um terceiro fator, entretanto, que emerge do confronto dos outros dois: o entorno. Se Scott for legar algo ao cinema, será justamente seu apuro e cuidado na construção dos cenários e na sensação de que se está em um ambiente soberbamente alienígena – mesmo em retratações de época. É por isso que a segunda coisa que mais se lembra de algo como ‘Alien’ – depois dos mamilos de ms. Weaver – é o horrendo traço biomecânico de H.R. Giger, talvez a mais indelével influência das artes plásticas na ficção científica cinematográfica.

Em “Prometheus”, a excelência gráfica é levada às últimas consequências. Tudo é incomensurável, de dimensões inaceitáveis, inacessível às insignificantes referências humanas. Eloquente, a cenografia é extremamente eficiente em propor, com sua escuridão insistente, uma grandiosidade adormecida.

O problema é que faltou roteiro. E um pouco de silêncio. Ao invés de transmitir para os personagens o nível de contemplação que parece exigir de seu público, Scott e seus roteiristas de Dragon Ball Z enchem a boca dos protagonistas de mesquinharias. O esforço de fazer com que cientistas do fim do século XXI tenham vocabulário e cosmogonia de pit-boys transformou o que seria uma privilegiada expedição de peritos em uma tour de fracassados que poderiam completar, sem prejuízos, o cast de qualquer um dos dezessete “Velozes e Furiosos”.


Sim, ferraduras podem voar.

É claro que ninguém precisa recorrer à afetação cientificista de Star Trek, com roteiro em alemão arcaico e citações de Plutarco no começo, no meio, nas coxas torneadas de Noomi Rapace e em cima do crédito do cabeleireiro de Charlize Theron. Mas a ambição do tema e o caráter épico e pioneiro da missão não encaixam com a necessidade de aproximar a plateia do que está sendo mostrado. O enredo está em um nível alto demais para que a empatia do público com os personagens seja algo preocupante. Quando o HAL 9000 de Stanley Kubrick diz que a rebimboca-estagalamétrica da nave deu defeito na zona Who-Cares-48, ninguém quer ver Woody Allen com roupa espacial movida a jatos de autodepreciação sair pra dar uma olhadinha. É preciso alguém muito mais invulnerável para aturar a imensidão das dúvidas que aparecem.

A verdade é que “Prometheus” deveria trazer personagens que dissessem muito mais com olhares estupefatos do que com falas deletadas de “Avatar”, e mais distantes de nossa tagarelice e previsibilidade reativa. É humor de péssima qualidade para um sci-fi colocar um sujeito para viajar  quilhões de anos-luz, acordar de um sono de dois anos e, diante de tanto a se pensar, deixá-lo preocupado com questões tão fundamentais quanto o inchaço de suas bolas.

Doze em cada dez resenhistas costumam justificar a falta de consistência de um filme como esse atirando bombas de cocô na acefalia da juventude atual – e na necessidade do mercado cinematográfico de masturbá-la. Mas os problemas parecem ser bem mais complexos do que sugere esse fatalismo "adorniano". É difícil saber o que faz com que um cineasta com a ficha corrida de Scott ainda acredite que tenha que se diluir escandalosamente – porque “Prometheus” é a exata filmagem disso – em nome de alguma coisa que se acredita ser “acessibilidade”. Porque acessibilidade é a puta que o pariu.

“Senhor dos Anéis” é um caso emblemático para enterrar de vez besteiras como essa.  Apesar de sustentada sobre um dos textos mais densos e rebuscados de que se tem notícia no cinema de entretenimento atual – graças à fidelidade shakespeariana aos devaneios medievalistas de Tolkien –, a trilogia se sustenta, até hoje, como a ideia mais rentável e copiada do cinema nos últimos dez anos. Com sua estética sci-fi de luxo sublinhada pelo roteiro de algum episódio de Hannah Montana, “Prometheus” é só um esboço do que poderia ter sido. E incha ainda mais o terrível legado das ‘prequelas’, um departamento que ainda não conseguiu somar, ao cinema atual, um único acerto.

14 junho 2012

"GENESIS"? HA HA




Saudosismo é uma merda. Não serve pra nada. Não percamos tempo com ele. Eis então, na nossa programação dedicada ao hoje, ao já, à atualidade, um grupinho recém-criado em uma garagem qualquer de uma ilhota qualquer do Mar do Norte. Pelo nome, deve falar muito about the fucking church, o que com certeza irá gerar problemas, processos e cruzes incendiadas nos quintais de seus desconhecidos e ingênuos integrantes lá na frente. Traz várias influências de Dream Theater, Transatlantic, Spock's Beard, essas coisas aí. O clipe é uma bosta. Tentaram transmitir um negócio meio 1976, mas ficou parecendo a Bandeirantes. Mas a pecinha é OK. 

Quem quiser conferir o disco inteiro desses pivetes, favor acessar isso aqui:



13 junho 2012

CHESNOKOV



Não sei quem é esse Chesnokov, Pavel. As informações sobre ele só dizem que foi mais um compositor russo que se fodeu nas mãos do sovietismo e seu medinho de manifestações religiosas. Então vejamos o excerto acima e partamos, a seguir, para um exercício: descobrir de que forma exatamente o socialismo pretendia construir um novo Homem incinerando da história coisas como 'Gabriel's appeared'.

03 abril 2012

CINEMA: "Guerreiro", de Gavin O’Connor

Dana White já pegou o celular dos dois



Resumo:
Dois irmãos que não se bicam – um ex-fuzileiro do exército americano e um professor de física fissurado em luta livre – se metem em um campeonato de MMA com atletas de ponta para faturar a fortuna prometida. O destino que ambos querem dar ao dinheiro é nobre. E no meio de tudo está o pai beberrão, que quer se redimir com os dois mesmo treinando, apenas, um deles.

Nota: 7,27



 Quem detém os direitos de distribuição de ‘Guerreiro’ deveria não apenas ser demitido sumariamente, mas preso e submetido a sessões diárias de sodomia. Sustentado em irretocáveis e ultrarrealistas cenas de MMA, o filme de 2011 sequer passou perto da salmonela que repousa sobre as pipocas do chão de qualquer sala de cinema brasileira.

Se há motivos para que um filme que trate de MMA não seja devidamente disseminado no país em que a modalidade mais se popularizou, que sejam apresentados imediatamente, sob juízo e com a presença dos pais do réu. É abaixo de infantil traçar fórmulas para o sucesso, mas há várias razões para crer que um filme como esse seria carregado pela multidão extasiada no país mais recorrente dos pesadelos de Chael Sonnen. 

Só que ganha um doce quem souber a que esse ‘Guerreiro’ se propôs no final das contas. Porque, pelo seu final, tudo não passou apenas de pretexto para uma grande luta de clímax – o que é ótimo e poderia acontecer a cada 15 minutos, mas não resolve nem 16% dos problemas que foram colocados na primeira metade da trama.

A sensação predominante é a de que o roteirista vendeu ao espectador um DVD que, quando tirado da embalagem mais tarde, em casa, só traz em seu interior um adesivo do Corinthians. Eis o que acontece quando se passa metade da obra no desenvolvimento de situações que o financiador da película, muito provavelmente, solicitou para suprimir educadamente aos gritos (atenção: isto é uma estimativa).

Apesar da satisfação que emana do excelente confronto final, ‘Guerreiro’ não é necessariamente um drama de irmãos, mas uma obra com um único protagonista: o MMA. Mesmo assim, há certo esforço coletivo para nos convencer de que a preparação dos personagens não aconteceu apenas na academia de Steven Seagal.

Tom Hardy, por exemplo, é um ator curiosíssimo. É difícil acreditar como um sujeito pode ser tão bonito e absolutamente nojento ao mesmo tempo. Aqui, ele se contorce sobre o peso de seus horríveis ombros inflados em alguma academia do subúrbio de João Pessoa, grunhe “fuck off’’s pro seu querido pai a cada cinco minutos e destrói narizes alheios com a delicadeza de um coice de girafa – o pior que existe, segundo manuais de inutilidade. Seu Tommy é visceral e convincente, embora prejudicado, diante de plateia pensante, por ridículas inserções jornalísticas sobre seu heroísmo como fuzileiro.

Já o australiano Joel Edgerton tem a cara de macho que Leonardo Dicaprio nunca vai ter e o abdômen que Stephen Dorff está tentando adquirir há 38 anos. Seu Brendan Colon, o professor de física que luta escondido da mulher em ringues de vigésima terceira categoria, lhe exige apenas fisicamente – o que, convenhamos, não é pouco. Marido fiel, de fala mansa e parceiro da garotada, Colon é o herói eleito pelos roteiristas para apanhar muito e chutar algumas bundas anabolizadas até seu destino final. O que obriga Joel Edgerton a carregar duas bandeiras: a de ser um clichê terrível revestido de um personagem cujas falas conseguimos prever três anos antes; e a de fazer um lutador de MMA com abdômen de granito em um filme realista sobre semi-assassinatos em pay-per view. 


O que não dá pra entender é porque Nick Nolte foi indicado ao Oscar por seu personagem aqui. Seu papel é repetitivo e sem grande profundidade. Vá lá: tem um momento específico de grande rompante de descontrole, sempre adequado pra cara de buldogue sem focinho de Nolte – e para os flashes dos indicados ao Oscar – , mas nada que o posicione como uma grande força de um ano inteiro. Longe de ser um fenômeno da natureza, a interpretação do velhote seria mais um penduricalho para conferir um pouco de credibilidade dramática ao que poderia ser apenas um filme sobre pitbulls se engalfinhando. Mas quase passa batida.

O vazio que ambienta o fim de ‘Guerreiro’ denuncia que o diretor Gavin O’connor e seus amiguinhos queriam apenas mostrar o MMA como tema cinematográfico. No fim das contas, nenhum drama paralelo foi satisfatoriamente resolvido – embora o vácuo deliberado seja um recurso utilizado muito antes até de Machado de Assis – e a aposta do filme recai inteiramente sobre o êxtase de saber qual dos dois brigões vai se sair melhor.

Mas nem esse segredinho Gavin O’connor soube esconder. Pelo menos de quem sabe ver clichês de roteiro em cima de um octógono. No fim de tudo, o grande perdedor é o dono da distribuidora do filme: se ele tivesse mandado a película pros multiplex tupiniquins, talvez estivesse, agora, montando um UFC particular.