
A obra: ‘Naurêa apresenta: o Sambaião’, da Naurêa, disco lançado em 2006. Banda é Abrãao Gonzaga nas guitarras, Alex Sant’Anna no triângulo e nos vocais, Aragão no cavaquinho, Betinho Caixa D’água na percussão, Léo Airplane no acordeon, Márcio de Dona Litinha na zabumba e nos vocais e Patricktor4 nos pandeiros e surdo.
A Nota: 3,93
Indicado para: fãs da Cláudia Leitte. Ou para qualquer um que está se lixando para o que é originalidade ou repetição e quer mais é sentir o tambor, beijar na boca e ser feliz daqui pra frente. Pra sempre.
A crítica:
Os simpáticos à humildade que se desesperem: pretensão e presunção são forças-motrizes mais do que nobres para a criação artística. E é pouco contestável que, ao lado da cuidadosa lerdeza e da exigência semi-psicopata, os dois elementos citados compõem os ingredientes fundamentais para a concepção de uma obra que queira estar entre o minimamente suportável e o estupendamente genial. Ninguém sabe se lentidão e intransigência nas decisões foram a tônica das gravações deste trabalho – além, é claro, da própria Naurêa. Mas ninguém com o jardim de infância concluído terá a menor dúvida de que o álbum pode ser estabelecido como presunçoso antes mesmo de ser executado. Isso porque, a não ser sob a forma de piada, algo intitulado ‘Naurêa apresenta: o Sambaião’ está muito longe de ser simples: trata-se de ousadíssima proposição de algo novo. É nessa hora que, perplexa e absorta, a platéia bate palmas só de ver o pano fechado. Mas eis que a desgraça desse espetáculo é, pasmem, sua própria apresentação. Por quê? Porque esse disco é um saco.
Mais: um fracasso. É o pisoteamento das expectativas por uma manada de elefantes – montados por hipopótamos prenhes. É a experiência anulada e negada como queda de energia antes do anúncio do assassino. É a pulverização da paciência em micro-partículas. E o é justamente por não converter a imensa e saudável presunção da capa e do título em um repertório com substância, inventividade e força suficientes para alicerçar o tal do novo ‘caminho’ proposto. É importante reconhecer que há algo que de fato parece fazer força para surgir de toda a massa de tons e superfícies gerida pela Naurêa. Mas foi provado que não será da cloaca do septeto que sairá esse ovo. Ao término de quinze faixas repletas de tum-tum-tums, toin-toins, pi-pi-pis, fon-fon-fons e letras com gracinhas pop de pouquíssimo ou nenhum efeito, a única reação possível é aquela em que o sujeito olha para um lado, olha para o outro, toma consciência do tempo que perdeu e resume todo seu entendimento a um perdigoto simultaneamente interrogativo e exclamativo de cortante poder de síntese: ‘sim, e daí?!’
CATARRO
Entre os atributos pouco discutíveis da Naurêa nesse trabalho está aquele que é apresentado logo na primeira faixa: pressa em frustrar. Peculiarmente irritante, ‘Compay Segundo’ é tão convidativa na entrada quanto uma sopa fria de quiabo. É sempre válido destacar que isso não tem nada a ver com o pretenso ecletismo da canção, que brinca de amarelinha em diversas convenções já sepultadas com a denominação ‘brega’ tatuada na testa. Até porque essa recorrência, na realidade, é o único recurso interessante da faixa, que se equilibra com muita tensão entre estudo irreverente e lambada de quintal. Mas é simplesmente inacreditável a insistência no pauperismo melódico e a esquizofrênica repetição do verso ‘eu quero’ até a enxaqueca do mais equilibrado ermitão. Depois disso, o único projeto seguramente mais pretensioso que o disco é o exercício de continuar escutando-o.
A coragem é logo compensada com a válida ‘Sexta-feira’. Apesar da repetição abusiva do tema – que não tem lá essa força toda para ser explorado até o ribossomo, como algo merecedor de reforço –, é muito difícil deixar de notar a inteligência dos arranjos. Mas é brutalmente covarde o dueto entre Silvério Pessoa e Alex Sant’Anna. Não tanto pela interpretação do pernambucano, que faz o arroz com feijão e se esforça apenas para não atrapalhar, mas pela quase sempre péssima performance do outro. Sem conseguir sustentar um único e simples fraseado sem derrapar ou inspirar pigarro em quem quer que seja, Sant’Anna demonstra ser o pesadelo-mor dos otorrinolaringologistas – desnecessário citar professores de canto.
ISSO, AQUILO, AQUILO OUTRO DE NOVO
Já em ‘Dona Lalinha’ é que se começa a perceber a obsessão da Naurêa pelo repeteco frasal. Alguém levantou o braço querendo uma demonstração. Então, vejamos: em uma, temos ‘eu quero ser isso, eu quero ser aquilo’; em outra temos ‘minha vida é isso, minha vida é aquilo’; em uma terceira constam um punhado de ‘a fome é isso, a fome é aquilo’; em uma quarta puseram ‘me diga se é isso, me diga se é aquilo’. Na burocrática ‘Dona Lalinha’, a doentia recorrência papagueia uma mão cheia de ‘amar é isso, amar é aquilo’, dando início ao abuso de um recurso que, se é simpático na primeira vez, vira pura pentelhação formulaica e metafórica na vigésima terceira. Ora: se o assunto acabou, é melhor aproveitar a linha melódica com um assobio. ‘Álcool ou Acetona’, por sua vez, funcionaria melhor na entrada do que a débil ‘Compay Segundo’. Irreverente, intensa e levemente obscura, a faixa exala a convocação. Mas é o tipo de coisa mais fácil de se agüentar em apresentações ao vivo – onde há zilhões de estímulos visuais disfarçando a duração desnecessária das faixas – do que na apreciação introspectiva de um disco.
SIM, CADÊ?
Até aqui, assoma de vez um questionamento que não consegue se segurar por muito tempo: mas que diabos é o Sambaião? Se for a convivência da sanfona com o cavaquinho, não é lá muita coisa, já que o segundo tem presença tímida demais para ter relevância no mosaico percussivo. Se for a convivência do pandeiro com a zabumba, a pertinência é ainda menor, já que o que realmente doma tudo é a ritmia forrozeira do primeiro. A única peça que ensaia se aproximar da proposta de bater samba e baião no liquidificador é a teatral ‘João do Valle’, que sustenta a melodia de forró com uma batucada miscigenada e levemente indecisa.
É assim que nada de novo é identificado na péssima ‘Novena de São Bill Gates’ – prova de como até hoje ninguém no cancioneiro nacional conseguiu contextualizar de forma inteligente os novos tempos – nem na curiosa mas estranhamente socialóide ‘A Fome’; nem na apenas genérica ‘Vc Toda’; nem na doidice desinteressante de ‘Genival Lacerda’; nem na cansativa ‘Luiz não morreu’, absolutamente feita em cima de convenções desgastadas. Por outro lado, não é preciso esforço para descobrir certo valor na instrumental ‘Hoje só amanhã’, simpático estudo que casa choro com Caribe, e na rude e curiosamente arranjada ‘Dengo’. O prêmio ‘desperdício de ouro’, porém, vai para ‘Dorival Caymmi’, que, apesar do início promissor, não parece ter sido realizada com o mesmo excesso de ponderação com que o homenageado tratava suas criações, e peca pela insistência esquizofrênica em uma única estrutura – isso para não falar na insuportável interpretação de certo vocalista.
O fracasso da Naurêa nesse trabalho é ainda mais catastrófico quando se vislumbra sua proposta e todo o complexo de grandeza a ela inerente. Se o lançamento de uma obra como essa coincide com o nascimento do próprio Sambaião, quinze faixas depois já temos seu sepultamento – e essa é a perspectiva otimista. A realista é a que vislumbra que não aconteceu absolutamente nada, e tamanha ‘novena’ se resumiu a um bando de sujeitos batendo em peles com alguma noção percussiva, pouquíssima noção harmônica e nenhuma noção de como lidar com a própria vontade de transgredir. Apesar disso, ‘Apresenta o Sambaião’ é um raro espetáculo de aplausos garantidos: na entrada, celebra-se sua presunção; na saída, seu fim – pois é junto com ele que todo o sofrimento, definitivamente, acaba.