08 abril 2010

TOQUE CINCO



Esse blog é uma vergonha. As publicações são tão bissextas que o tal do especial Michael Jackson, que já começou com o cara enterrado (o que não foi algo lá muito ágil, caso tenham se esquecido), não vai ser concluído antes dele ser reencarnado em algum par de gêmeos siameses. Mas ao contrário da débil mentalidade de certos colunistas daqui, isso tem jeito. Vamos experimentar mais uma sessão. E prometo (!) que essa será mais freqüente, já que a tal ‘Cocômentários do Ano’ é tão dependente da escassa participação popular – ainda que este blog seja realmente abençoado no que se refere a atrair intervenções perturbadas. Digo: perturbadoras. 

Então lhes apresento ‘TOQUE CINCO’, minha lista quíntupla dos principais petardos de cada estilo. Mas os apressadinhos não precisam menstruar: as edições não serão únicas. Uma mesma estilística poderá ter várias listinhas. E não, a ordem de apresentação das obras não é classificatória. Ela apenas obedece a um critério supremo: meu saco para descrever discos no tempo em que eu deveria estar escutando-os.


BRASIL (anos 70)

1) Clube da Esquina II (Milton Nascimento) 1978


Qual é a graça: Milton Nascimento é um bom compositor. Às vezes excepcional. Mas ainda melhores que suas composições são suas amizades. E foi somando uma com outra, entre uma pinga e outra, entre um doidinho do bairro belorizontino de Santa Tereza e outro, entre um cabeludo sem noção do interior mineiro e outro, que o sujeito terminou por cimentar, ‘apenas’, o mais importante movimento estético-musical do país: o Clube da Esquina (e não, a Bossa Nova e a Tropicália não foram esquecidas. Apenas colocadas em seus devidos lugarzinhos). Só que certa criticazinha sem graça defeca de emoção ao citar o ‘Clube da Esquina’ (1972), gravado pelo sujeito com Lô Borges, como a ‘expressão máxima’ dessa linguagem. Não é não. Aquilo ali é só o registro de um hímen rompido. O orgasmo é o ‘Clube da Esquina II’ – que Bituca assina sozinho, mas que, na verdade, é como se fosse um gigantesco ‘Amigos’.

Se no primeiro disco temos uma gravação nublada e repleta de riscos amadorísticos, aqui temos uma obra inteiriça, produzida por músicos calejados, já amadurecidos por aventuras solo e canções dezoito vezes mais complexas que as de seu ‘antecessor conceitual’. Há ainda o uso mais sistemático - e adequado - dos emblemáticos corais infantis que tanto marcariam a carreira de Milton Nascimento. E, é claro, a contribuição de gênios absolutos do som mineiro, como Tavinho Moura – autor da sacra ‘Paixão e Fé’, uma das canções mais belas já feitas em língua portuguesa, - e o próprio Lô Borges, o melhor compositor de ocasião de todos os anos 70 - já que preferia filar beques em acampamentos alternativos do que nos estúdios e, mesmo assim, arregaça nas definitivas ‘Pão e Água’ e ‘Ruas da Cidade’.

Como se não bastasse ser O ‘Clube da Esquina II’, o que já é um exagero, essa obra ainda aqueceu a carreira de Beto Guedes, ressuscitou Lô Borges de seu ostracismo injustificável, lançou o inconstante Flávio Venturini, catapultou o absurdo Toninho Horta e encorajou Tavinho Moura a entrar em um estudio. Desse jeito, nem precisava de participação de gente como Elis Regina e Chico Buarque. Mas tem.

2) Como vai minha aldeia (Tavinho Moura) 1978




Qual é a graça: Estão aí três coisas que ninguem gosta de receber: troco errado, pé-na-bunda e crítica. Todas são execráveis, terríveis. E que o deus do anonimato (quem?) proteja daquela terceira todos que não almejam reconhecimento na arte. Mas quem se mete a fazer ‘obras musicais de pesquisa’ ou ‘de resgate’ ou ‘de retomada das tradições’ simples e obtusamente não admite análises críticas. Por que? Porque esses magos acadêmicos estabelecem sua atividade acima das demais estilísticas. Por que? Porque o que é antigo, ignoto e distante é ‘intocável’, e, por alguma associação derivada de regras de esconde-esconde ou pega-pega, transfere a seus guardiães o benefício de um ‘cruz-cão’. Que lindo, isso. Mas se não existisse no panteão do cancioneiro nacional alguém como Tavinho Moura, essa intocabilidade dos caçadores de antiguidades seria apenas ridícula e broxa. Como existe, ela é ridícula, broxa e burra.

Depois de sua contribuição para o ‘Clube da Esquina II’ com a extraterrestre ‘Paixão e Fé’, Tavinho Moura poderia passar o resto da vida fazendo parcerias com Cid Guerreiro sem ter sua reputação abalada. Mas em vez dessa vida rentável, o rapaz decidiu lançar ‘Como vai minha aldeia’, um disco de estudos e peças autorais que prova sua particular tendência de dar uma séria melhoradinha em peças populares - ao invés de buscar tapinhas nas costas por se escorar nelas. Suas leituras para as tradicionais ‘Calix Bento’, ‘Ribeirão Encheu’ e ‘Serena Estrela’, por exemplo, são definitivas. E algumas de suas canções autorais, como ‘Calmaria’, ‘Cruzada’ e ‘Mauá de Baixo’, são peças inalcançáveis, que agregam a rusticidade melódica das canções de viola com a profundidade harmônica do próprio Clube da Esquina. Mas o mérito mouriano é maior ainda: ao invés de ser um antropólogo de baixa autoestima travestido de músico, Tavinho Moura é o dono da aldeia travestido de compositor urbano.

3) A Via Láctea (Lô Borges) 1979



Qual é a graça: No meio dos anos 70, Lô Borges simplesmente sumiu. “Nossa, estamos entrando na era de Aquário. Acho que ele foi assistir Glauber Rocha em Sirius”, soltariam alguns leitores de Paulo Coelho. Não, meninas. Consta que ele se mandou para alguns agrupamentos alternativos perdidos no interior do Bananão. Foi vítima da antiqüíssima síndrome do ‘ai-como-quero-vender-artesanato-em-beira-de-estrada’. E isso foi uma grande merda. Porque se não tivesse sido abduzido por paus-de-arara, Borges talvez tivesse criado coisas que o situariam, hoje, como o verdadeiro deus máximo da música mineira.

Mas ninguem pode dizer que a pancada na cabeça que ele deve ter levado após 1978 não o aproximou disso. É claro que esse ‘A Via Láctea’, que assinala o fim de um estranhíssimo ostracismo discográfico de 7 anos, não é necessariamente o monólito negro de Kubrick, um petardo sem arestas ou um artefato divino amplamente citado em enciclopédias. A ordem das canções, por exemplo, é muito ruim. Uma delas, ‘Olha o bicho livre’, mesmo não necessariamente catastrófica, deve ter sido colocada lá de sacanagem. E alguns arranjos parecem ter sido feitos sob a mira de uma pistola automática. Ainda assim, trata-se de um disco particularmente exigente, indiscutivelmente rico. E trata-se de um disco de Lô Borges em plenos anos 70, pelo amor de Deus.

Fora uma doentia e quase que total ausência de organização e unidade estética, ‘A Via Láctea’ é fundada num hibridismo que praticamente definiu o que seria a sonoridade do Clube da Esquina nos anos 80. Só que isso indica apenas seu valor histórico. Seu valor absoluto como obra está nos lampejos do que há de melhor no rock rural, achados harmônicos que transcendem o tecnicismo, arranjos e orquestrações específicos para canções igualmente específicas e letras hermeticamente impensadas. Tudo aponta para complexos exercícios que, ao contrário da elegância apolínea de uma Bossa Nova ou do antropofagismo lisérgico da Tropicália, não soa como algo estilisticamente engajado. É apenas arte original e meticulosa. E o tardio retorno de um compositor alienígena que, dali a mais uns 2 anos, saltaria outra galáxia sem sair do chão.

4) Ópera do Malandro (Chico Buarque) 1979



Que é que tem: A intocabilidade de Chico Buarque é uma aberração sociológica. Ou talvez um mero fenômeno de adesismo em massa. Só que não é preciso ser nenhum Mário de Andrade para identificar, em cada disco de sua obra, pelo menos uma pecinha que poderia, sei lá, ser queimada e ter suas cinzas arremessadas no centro de um acelerador de partículas. Lá estão as inválidas ‘Gente humilde’ e ‘Cordão’ como candidatas à experiência. ‘A Ópera do Malandro’, é claro, não foge a essa infeliz escrita. Mas aqui o sujeito exagerou tanto na excelência, na versatilidade e no domínio da forma que conseguiu aplicar valor tolerável aos eventuais escorregões. E o resultado é esse: um disco predominantemente brilhante que encerra a trilha daquele que, talvez, seja o único musical nacional digno de menção.

A desorganização da obra é assustadora. Mas a qualidade das composições tambem é. E isso basta e vira o placar a favor. Canções como ‘Viver do Amor’, ‘12 anos’, ‘A volta do Malandro’ e ‘Se eu fosse teu patrão’, só para citar quatro, estão entre os mais soberbos exemplos do emblemático entendimento buarquiano do traçado das tradições. E apesar do velhíssimo e porre cacoete de atribuí-lo inalcançáveis senhas do universo feminino, é notável destacar o cuidado poético e melódico das duas canções desse disco que o fizeram virar um gino-deus: ‘Folhetim’ e ‘Meu Amor’.

As listinhas de discos importantes do cancioneiro nacional costumam pagar pau e meio para ‘Construção’, que o velho Francisco gravou em 1971. Mas esse é justamente o disco que denuncia o viés meramente educacional dessas listinhas. Porque não é com a ‘Opera do Malandro’ que se faz uma introdução a Chico Buarque. É com ela que, junto a algum conhecimento prévio, se define com força uma constatação: de que o sujeito, falível que é, conhece o gosto do chão; mas, excepcional que é, não trabalha com altura mínima.

5) Acabou Chorare (Novos Baianos) 1972



Qual foi: É muito mais agradável apreciar o desenvolvimento progressivo de um ninho imperial de aranhas caranguejeiras  do que olhar pr'aquilo que Moraes Moreira costumava chamar de cabelo  em qualquer época de sua vida. Do mesmo jeito, passados mais de 600 anos do lançamento desta bolacha,  ainda é muito melhor escutá-la do que qualquer coisa que a pretensiosa Tropicália legou ao cancioneiro nacional. E olhe que Gilberto Gil lançou coisas respeitáveis. E olhe que os Mutantes lançaram coisas muito dignas. E olhe que Tom Zé conseguiu extrair beleza de sua paraesquizofrenia. E olhe que Caetano Veloso... não, esse não.

A irreverência transbordante de ‘Acabou Chorare’ é um soco no baço da (já) asfixiante empolação elitista e metida a ultra jazz da Bossa Nova. Se à época muito poucos conseguiam escapar do bafo jobim-gilbertiano, aqui a expressão de ordem parece mesmo ter sido ‘vamo tirar onda essa porra’. Com predominância de elementos nacionais, mas sem xenofobia. E sem muitas reservas. Por isso não basta um bandolim cortante dobrando solos que poderiam estar num disco do Yes. Tem que ter uma guitarra. Por isso não basta a voz de vendedor de inhame de Moraes Moreira. Tem que ter a voz de uma menina de sotaque mais carregado que uma caçamba de mina. Por isso não bastam as harmonias de choro, de partido alto, de samba de roda. Tem que ter algo mais. Que ninguém – fora os sabichões da Cor do Som - sabe dizer o que é. E que, de tanto ninguém saber – fora, DE NOVO, os sabichões da Cor do Som - , nunca souberam reeditar direito.

Próxima edição: os cinco mais do rock progressivo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Falas mal da obra de Chico Buarque, mas não fundamentas nenhum dos comentários que, de críticos, somente possuem seu estado moribundo de fazer pose de intelectual. Ainda bem que hoje a tecnologia é digital, senão ia queimar o filme kkkk.

igor matheus disse...

Pose. Taí um negócio que eu queria aprender a fazer. Me ensina, chicólatra?