21 julho 2009

O MAL QUE VEM DE DENTRO


A obra: ‘Na Multidão’, de Mingo Santana. Gravado em 2002, disco contou com Flor no baixo, Peninha nos teclados, Rômulo Filho na bateria, Lito Nascimento nas guitarras. Amorosa e Kléber Melo estão entre as participações especiais.

Indicado para: castigos e torturas.

A nota: 3,11

A crítica:

‘Ah, pra compor tem que ter talento’. ‘Ah, pra compor tem que ter ouvido’. ‘Ah, pra compor tem que ter sensibilidade’. Babaquice. Besteira. Pitty, Badauí, Latino e Humberto Gessinger são comprovações ambulantes de que, nessa era pós Sid Vicious, qualquer toupeira pode ‘compor’. Qualquer um pode bolar uma frasezinha qualquer e entoá-la em pelo menos duas notas. Qualquer um pode pensar uma seqüência de três acordes em um violão barato e papagaiar duas frases de efeito para ganhar prêmios na MTV. Qualquer um pode escrever letras purgantes sobre perspectivas adolescentes do mundo cão, temperar tudo com uma nota e meia e encher o cólon de dinheiro.

Coisa 'de macho' mesmo é compor e imediatamente depois estragar sem piedade o que se fez. Isso sim exige estômago de avestruz. Isso sim é para samurais do desprendimento, para sufis do imaterialismo, para iogues centrados no estado etéreo das coisas. E esse ‘Na Multidão’ é um exemplo supremo desse tipo de postura. Mas há algo ainda mais excelso mentalmente do que o exercício de descompromisso autoral exibido por Mingo Santana nesse trabalho: agüentar esse disco até o último minuto sem pedir penico.

O papinho brocha da influência da falta de recursos no fracasso artístico de um álbum não tem permissão de aterrissar em nenhuma área dessa obra. Aqui, nada soa abaixo de profissional nos arranjos de base. Cada faixa apresenta uma penca de músicos diferentes de alto calibre técnico. Há quilos e mais quilos de participações especiais. E o encarte, mesmo liderado por uma capa não menos que impensável, está a contento. O terreno para a concepção de um disco de nível razoável a brilhante, portanto, estava lá, devidamente arado e irrigado.

Mas eis que Mingo Santana toma a ascensional decisão de transformar uma potencial horta em um terreno baldio. Para atingir esse objetivo, o autor desperdiça toda a estrutura que adquiriu em composições de valor duvidoso, salpica clichês por todo canto, desafia a paciência de todos com estudos de carnaval que ninguém precisa mais e, principalmente, aterroriza ouvidos alheios com um desempenho vocal de esvaziar auditórios. Graças a essa espiritual capacidade de conceber amorfia e bagulho com todas as ferramentas nas mãos, Santana transformou seu disco em um artefato definitivo: se nem mesmo o bom alicerce técnico dos arranjos salva a obra de ser uma tragédia, tenha medo do que resultaria se tudo fosse menos robusto. ‘Na Multidão’, assim, é o tipo de trabalho que se esforça com energia em ser absolutamente desnecessário - e acaba conseguindo até coisa pior do que isso.

SANTANA´S LIST

O primeiro lema de Santana é muito claro: se é para estragar, é melhor estragar logo. Daí a entrada de sola com a maligna ‘Berço Brasil’. Se em alguns momentos a peça não faz mais do que se equilibrar rigidamente sobre convenções de choro, em outros aparenta ser um instrumental estragado por uma intromissão inconveniente de vocais. E como se não fosse suficiente a preguiça da voz principal, certos trechos da linha melódica se encerram bruscamente, deixando a canção incompreensivelmente suspensa. É como se o protagonista houvesse esquecido a letra ou simplesmente estivesse com preguiça de encerrar a canção da forma como sua previsível simetria exige. E a infinita lista de compositores que Santana, lá pelo fim da faixa, cita em tom solene, é tão emocionante quanto a leitura da relação de aprovados no concurso para zelador de caixa de luz do prédio da esquina.

Não há como deixar de notar que a faixa-título ‘Na Multidão’ é caracterizada por arranjos ágeis, progressões harmônicas despojadas e um esforço razoável da banda base para deixá-la atraente. Mas Santana, talvez assustado por ter concebido uma peça potencialmente suportável, decide mandar tudo à lama com uma performance vocal tão burocrática e sem carisma que quase ofende. Como se não bastasse sua atuação espanta-moscas, um razoável número de frases melódicas é ornado com apêndices sub-tonais, elementos capazes de desafiar a estabilidade gástrica de qualquer um que tenha escutado, ao menos uma vez na vida, alguém cantar afinado.

DEIXA QUE EU PIORO

Dentre os exercícios primários de auto-afirmação de identidade que o autor-intérprete não se cansa de exibir nesse trabalho, ‘Eu sou’ é a única que traz em si alguma força. O problema é que a soma da tropicalidade rítmica com guitarras pesadas como chumbo com uma soprano lá atrás insiste em não descer muito bem. A convivência entre as três partes não funciona nem no tapa, e o que deveria ser um exercício supremo de ecletismo não passa, na verdade, de um exercício supremo de breguice e de sobreposições equivocadas. Já na detetizante ‘Cabeça Boa’, a performance nula de Santana intensifica a dolorosa experiência de se aturar os clichês de reggae que perpassam tudo. Sem falar na abissal profundeza poética de versos como ‘quem é o seu personal trainer, quem é o seu cabeleireiro’, exercícios mal-sucedidos de concepção de conteúdo a partir de mera citação de frivolidades.

Uma audição descompromissada da doentia ‘Tá na linha’ já é suficiente para quem quiser elencar diversas justificativas para sua irrelevância. Pode-se começar pela letra, que versa sobre um imbróglio qualquer envolvendo ligações telefônicas e orbita bestialmente em torno do enigmático refrão ‘alô, alô, liga, alô, alô, liga’. Dá para citar ainda a rasteirice da harmonia e da melodia, que não trazem absolutamente nenhum elemento que justifique a existência da peça e joga na privada arranjos inventivos. Mas o troféu ‘Deixa que eu pioro’ vai mesmo para o pavoroso desempenho de Santana, sempre afetado, artificial e, por conseqüência, inócuo. Tão ou talvez ainda mais medonha do que esse exercício de ‘nadificação’ do protagonista é a constatação, via créditos, de que tamanha obra-prima necessitou de quatro seres humanos pensantes para ser feita.

BRAVA PLATÉIA

As peças se amontoam e prosseguem com uma regularidade simplesmente assustadora no quesito irritabilidade. É preciso saco feito de adamantium para agüentar a paródia pouco convincente de canções de trio elétrico ‘Sem Abadá’, onde o ártico desempenho vocal do autor transmite a sensação de tudo ter sido gravado como se algo muito mais importante estivesse acontecendo fora do estúdio; para aturar as também carnavalescas mas sem impacto nem carisma algum ‘50 anos de trio’ e ‘Avenida beira-mar’; para engolir a dispensável marchinha de videoquê barato ‘Sapatinho de cristal’; para suportar ‘Doce recordação’, tentativa sem-graça de choro marcada por primárias e constrangedoras derrapadas de afinação. O insólito coito entre afoxé e heavy metal em ‘Os Organs’, por sua vez, mostra o quanto algumas canções de Santana poderiam ser menos prejudiciais se submetidas à interpretação de quem realmente tem tino para isso.

O festival de horrores de ‘Na Multidão’ entra em sua há muito desejável reta final com a estranhíssima ‘Pianinho’. Lá, é tudo tão desagradavelmente aleatório que chega a ser, paradoxalmente, monótono. E a doidice frenética do piano não serve para nada além de apenas disfarçar a intensa inexpressividade harmônica, multiplicada por setenta e três quando conjugada com a péssima melodia. Sofisticalóide, antipática e metida a free jazz, ‘Pianinho’ ainda se dá ao luxo de ser completamente deslocada e alienígena a todo o repertório apresentado por Santana. Pelo menos a esquizofrênica repetição da frase ‘Brava platéia’ no final reconhece o esforço descomunal de quem chega ao final dessa obra.

‘Na Multidão’ é um disco bisonho, melodicamente primário, harmonicamente desnutrido e vocalmente capaz de encorajar passeatas de protesto – só que contra a própria obra. Mas a experiência de escutá-lo, mesmo majoritariamente cercada pelo desesperador desejo de que o céu caia ou o inferno suba, também ensina. É um trabalho como esse que explicita que de nada adianta um séquito de bons músicos, grandes arranjadores, participações contributivas: quem é ruim é ruim em qualquer lugar e ao lado de quem quer que seja. Mesmo enfiado ‘na multidão’ de colaboradores, Mingo Santana é mais do que o contraponto-mor de todo o esforço alheio para salvar a obra: o autor é, sobretudo, a pior coisa de seu próprio disco.

3 comentários:

Anónimo disse...

Meu Deus, a primeira vez que ouvi Mingo foi na música "Ponta dos mangues" deve ser de outra "obra" do autor, também tive a exata sensasão que vc decreve no texto...quase morri de rir. Parabéns Igor, vc é meu ídolo!

Anónimo disse...

Sempre fico sorrindo qdo leio suas críticas, nao deixa passar nada heim rs.Mas você sabe o que diz porque conhece a fundo a musica. É competente e tem profissionalismo.
Parabéns Igor!

Lara Gouvêa disse...

Igor...

Pensei que só eu havia percebido tudo isso que você descreve no texto kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
"Na Multidão", sinceramente, foi um dos PIORES cds que já ouvi em minha vida...!
Você ainda foi muito generoso ao dar 3,11 como nota. Por que eu, sem dó nem piedade, teria dado -1!!!

=)